Viajar é preciso

Desde que o mundo é mundo, o homem vai e vem por aí. Não é por acaso que a Odisséia de Homero,que é talvez o primeiro relato escrito de quem se tem notícia ( do séc VII a.C.), seja a história da volta de Ulisses para Ítaca, onde Penélope o esperava. E as aventuras ímpares de Ulisses geraram esta obra magnífica. Nem preciso dizer o quanto ela me seduz. Tanto que nomeei minha filha por Penélope. Tamanho prazer me dá pronunciar todos os dias da minha vida este nome. Quem quiser ler em versos, a versão de Manoel Odorico Mendes em português está aqui. Tem também uma edição linda pra crianças da Ruth Rocha. Tem aqui para baixar, mas não tem as ilustras lindas do marido dela. Se puder, compre o livro. Livro a gente compra quando pode e lê quando der. Porque cultura nunca é demais. E mais informações sobre a Odisséia pela tia wiki estão aqui.

Enfim, Ulisses foi pra batalha de Tróia e voltou.

indo

Os portugueses (ah, estes portugueses..) se aventuraram num mar que era plano tinha fim pra descobrir que a terra era redonda e que do lado de cá havia índios. E nos deram esta língua de infinitas possibilidades em que você me lê agora e aquela certidão de nascimento tão linda quanto protocolar, onde se lê que que “nesta terra, em se plantando, tudo dá” e que temos “águas infindas”; que é a Carta de Pero Vaz de Caminha, versão original aqui e com ortografia atualizada aqui.

vindo

Viajar é do ser humano. Saber deixar e ter pra onde voltar é um grande alento. Não há porque sofrer. Eu deixei minhas filhas, meu marido, minha casa, o Bruno e dona Ana zelando por eles na minha ausência. Deixei recomendações escritas e como separar a roupa, ligar a máquina e reaproveitar a água.

nos3

descabelada, de pijama e óculos, eles ainda me amam! <3

descabelada, de pijama e óculos, eles ainda me amam! ❤

Fui cheia de saudades do meu menino grande de 3 anos e do pequeno que não conhecia. Fiquei com minha irmã nas madrugadas insones, nas tardes bagunçadas na cozinha e no supermercado. Rimos das nossas piadas internas e de quando éramos crianças. Falamos português em público porque esta é nossa língua materna. Fiz caramelo de flor de sal pra eles e bolo de chocolate no domingo (quem segue @deolhonacasa já viu!).  Dei banho todos os dias no pequeno. Eu adoro neném. E adoro o Leo também. Amo de paixão minha irmã e sua família mesmo estando a mais de 10 mil quilômetros de distância, mesmo vendo 2 ou 3 vezes por ano. Mesmo não estando presente nos nascimentos dos meus sobrinhos, que eu chamo de filho também.

banho

Voltei com sede dos beijos da Penélope, da Cleópatra e do marido. Da minha cama, do restinho das minhas férias, do blog e cheia de coisas pra contar. Viajar é bom. Você leva seus problemas e questionamentos pra passear e eles vão esmorecendo, vão virando outras coisas no caminho. Eles diminuem, a gente cresce. E a saudade dos que ficaram?, há você de me perguntar. A saudade taí mesmo é pra gente sentir. E só a gente, falante de português sente, porque não tem em outra língua. ( Como será que eles fazem, não?!)

voltando da escola

E voltar é pra mim tão bom quanto ir. Mesmo descobrindo que o marido não foi ao mercado e deixou faltar arroz, feijão, sal, papel higiênico e sabonete. Mesmo fazendo uma bagunçona ao abrir a mala que eu demoro semanas pra guardar. Mesmo sendo parada na alfândega por ter cabelo rosa e uma mala enorme. Mesmo voando na classe econômica. É muito bom ter um lar pra voltar. E muito bom ter uma família linda lá longe pra gente sentir saudades. Viver é impreciso.

E todo este post me deu um sei lá o quê melancólico português, uma nostalgia do tempo que tudo que eu queria era passar as tardes lendo Padre Vieira e ser letrada. Bons tempos. Viva Don Sebastião. E você, quer pegar um livro emprestado, fazer uma viagem? Pode entrar, estou de volta! 😛

  

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Livres e ao vento… Vão se os pensamentos

  

Ontem falei sobre os meus cabelos e uma breve história profissional  do que me trouxe ao momento que me encontro agora… E, poxa! Só tenho a agradecer! Quantas coisas boas, quantas pessoas gentis e sinceras me disseram coisas boas! E por isso tenho que agradecer duplamente: em primeiro lugar, às pessoas que se manifestaram – muito, muito obrigada pelo carinho e pela sinceridade! Em segundo lugar, agradeço às que não disseram/escreveram/manifestaram. Acho de uma educação realmente ímpar calar-se quando não há nada de bom pra dizer. Obrigada, também! 

  

E isso me levou a pensar sobre o blog e porque o criei. Na verdade, gente, criei o blog pra ter com quem falar, mesmo! Porque pro meu marido, tanto faz ou tanto fez a cor que eu escolho. Pior ainda que não dar opinião, é reclamar que vai ter que ajudar. Enfim, não vou ficar aqui reclamando dele, também, porque sempre acaba ajudando… Mas, definitivamente, não é o melhor interlocutor de decoração. Agora eu tenho com quem falar. Rá! E também tenho um orgulhozinho de alguns projetos que deram certo, mesmo eu sendo bi-canhenstra e com pouco tempo, e, ainda por cima,bem analfabeta digital! E com pensamentos bagunçados, esparsos aqui e ali…

E tem aquele questionamento-base do blog ali ao lado, né?! Do que difere uma casa e um lar?! Um lar é uma casa com gente, né, gente! E gente anda, bagunça, cresce, viaja, lembra, organiza, desorganiza… Né não?! 

  

Então seguinte: vez por outra teremos: cabelos rosa ao vento, comidinhas de infância, uma reflexãozinha sobre o segundo filho ou sobre deixar seus próprios filhos pra fazer alguma coisa… Pode ser?! 

É bem provável que isso organize mais minha cabeça e o blog se torne mais organizado também… Escrevendo a gente organiza, né! Tô até pensando em dividir em alguns blocos temáticos! Tem muito post no forno! 

  

E você, quer me ajudar?! Quer saber de alguma coisa?! Vocês vão conversar comigo?! Fica à vontade… A casa SEMPRE foi sua! ❤

Sobre as etapas da vida e um cabelo rosa 

será que ficou bom?

será que ficou bom?

Já falei pra vocês em algum lugar do passado que eu sou oftalmologista.

Tenho 38 anos, duas filhas de 9 e 11 anos, um marido, uma casa e sou oftalmologista.

Agora vou contar a história de como cheguei até aqui.

Na verdade, sempre quis ser médica. Desde sempre. Aos 10 anos, eu entrava no centro cirúrgico com meu pai pra vê-lo operar cataratas e adorava! Eu tinha até uma bizarra coleção de cristalinos com catarata na janela do quarto. Lia revistas especializadas para dormir, believe or not.

Então, com 10 anos, eu já tinha toda uma vida traçada. Maaass… Como o mais fácil nem sempre é o mais gostoso da vida, o que eu fiz?! Não sei se por medo de falhar, se por preguiça de estudar ( vocês lembram que adolescência dá preguiça, né?!) ou se por realmente querer viver num locus amoenus… No ano de prestar vestibular, eu simplesmente decidi que ser médica era levar uma vida muito careta, muito ocupada e preocupada, que eu preferia era cuidar das almas, ao invés dos corpos. Eu seria professora de literatura. E fui. Me formei, viajei pra França quando terminei, fiz mestrado, arrumei empregos como professora em colegiais e cursinhos. Um dia conto esta história direitinho. Ou pelo menos, como me lembro dela. Senão a gente não chega nunca no dia de hoje.

Aí quando eu tinha 25 anos, no meio do mestrado ( que foi sobre os Sermões do Mandato do Padre Antônio Vieira) e dando aula em 2 cursinhos especializados em vestibular pra medicina, eu pensei: Pára tudo!!! Que instituição contraditória é esta de cursinho! Eu não quero ficar o resto da vida trabalhando com adolescentes que pagam uma pequena fortuna pra entrar nas faculdades gratuitas, que são as mais concorridas… Não quero mais ser conivente com esta estrutura perversa de educação e também não quero ficar na academia matando dragões mortos há 4 séculos. Quero falar com gente, ver gente, examinar gente… Quero ser médica!

E assim foi. Entrei 2 vezes numa das melhores universidades do país, a Puc-Campinas. Nesta época, meu marido era namorido e ele tinha acabado de ser admitido no corpo docente desta universidade. Onde ele está até hoje.

Resumindo, a gente se casou em 2003, Penélope nasceu em 2004, no primeiro mês da faculdade; Cleópatra em 2006, nas férias do segundo pro terceiro ano. ( um dia faço também um post sobre esta fase complexa de mãe-estudante de medicina). Acabei a faculdade no final de 2009, trabalhei 2010 no PS, fiz residência médica em Oftalmologia na Unicamp de 2011-2013 e em 2014 fiz especialização em Córnea e Doenças Externas. Ufa.

self com o baby

self com o baby

Então hoje, neste mês, eu começo minha vida adulta. Já passei mais da metade da minha vida na universidade, 20 anos. Tenho 38 anos, 2 filhas de 11 e 9 anos,  marido, uma casa e sou oftalmologista.

E moro em Campinas. Meu marido trabalha aqui, na universidade onde cursei o curso mais caro deste nosso país pervertido com bolsa de estudos de 100% por ele ser professor.

Sou absolutamente feliz em ser médica. Sobretudo em ser oftalmologista. Mais ainda em trabalhar na clínica com meu pai, em Mococa.

Mas pedi um mês de férias. Estes 11 anos me cansaram sobremaneira.

E aqui estou eu, na Philadelphia visitando minha irmã é especialmente meu sobrinho Thomas, que nasceu quase na virada do ano.

Então minha irmã e eu passamos, numa destas tardes frias daqui, este pigmento rosa da Sparks, com pincel. Não se adiciona água oxigenada à "tinta". É só espremer da bisnaga e aplicar.

Então minha irmã e eu passamos, numa destas tardes frias daqui, este pigmento rosa da Sparks, com pincel. Não se adiciona água oxigenada à “tinta”. É só espremer da bisnaga e aplicar.

Eis que, de luzes em luzes, eu descolori o cabelo todo. E achei por bem pintar de rosa. Não é revolta, não é protesto, não é adolescência tardia. É só um marco. Começo minha vida adulta de médica de cabelo rosa. Não sei por quanto tempo vai durar. Não é uma decisão definitiva como ter filhos ou ser médica. Só que eu sempre quis ter cabelo rosa. E acho que nunca é tarde pra pequenas estripulias. Nem que seja pintar o cabelo de rosa ou aprender guitarra aos 40. Se isso o fizer feliz…

A cobertura não é uniforme e o cabelo estava super seco depois de descolorido… E o pigmento vai saindo com o tempo, deixando um rosa pálido que eu estou amando...

A cobertura não é uniforme e o cabelo estava super seco depois de descolorido… E o pigmento vai saindo com o tempo, deixando um rosa pálido que eu estou amando…

E você, quer pintar o cabelo, fazer medicina, aprender guitarra, decorar sua casa? Fique à vontade, a vida é sua!

Fala a verdade… Vocês não estão olhando pro cabelo, né!!!

Fala a verdade… Vocês não estão olhando pro cabelo, né!!!

E você, quer pintar o cabelo?! Quer mudar de profissão?! Quer aprender a tocar guitarra?? Fique à vontade, a vida é sua! ❤